domingo, 23 de abril de 2017

Exercícios sobre crônica da Marina


Quem somos? 

Neste início de ano, o noticiário nos impõe uma pergunta pouco confortável: quem somos? 

Ninguém de nós responderia "eu sou um dos revoltosos do presídio Anísio Jobim", assim como nenhum de nós contou as cabeças decepadas dos rivais, filmando a cena para exibi-la -- ou exibir-se -- nas redes sociais. Nós não somos os bárbaros. 

Bárbaros são sempre os outros. Mas um bárbaro ou uma matilha de bárbaros ou hostes de bárbaros não aparecem por acaso, não têm geração espontânea. Sobretudo quando inseridos em uma sociedade que se pretende civilizada, os bárbaros são um produto.

Em geral, produto de uma barbárie menos aparente. Fabrica-se um bárbaro colocando três para viver onde só um caberia. Ajuda-se um bárbaro a tomar plena posse de sua barbárie colocando-o num ambiente propício. Bárbaros exercitam melhor sua barbárie quando armados e com acesso a celulares. Pode-se enxertar barbárie numa criança privando-a de proteção, educação e de um ambiente adequado ao seu crescimento. Bárbaros proliferam melhor sem esgotos do que postos em uma universidade. Bárbaros se alimentam e se multiplicam graças a exemplos de barbárie bem sucedida. 

Quem somos? Nenhum de nós é aquele que viu os dois primos matando a socos o ambulante indefeso, cujo único crime havia sido defender uma travesti. Nenhum de nós é o que passou mais rápido e nada fez para impedir o assassinato. Muito menos somos aquele que, sorrateiro, aproximou-se do morto para roubar-lhe o celular que já não lhe serviria. 

Nenhum de nós é um prefeito sumido do posto depois de ter sumido com outras coisas. Nenhum de nós, ao retirar-se do cargo público que exercia, levou o computador ou a mesa. Nenhum de nós foi buscar o filho em um condomínio, na manhã de domingo, depois de uma festa de reveillón, a bordo de um helicóptero do Estado. Nós não somos aquele que percorreu cerca de 300 quilômetros de carro, procurando o lugar melhor para desovar ou queimar o corpo do homem que havia assassinado e que levava na mala. Nós não somos sequer aqueles que escreveram "Fora Lésbica!", sem esquecer o ponto de exclamação, em um quadro imantado destino a atividades infantis. 

O problema é que a pergunta não se pretende individual. Não se trata de saber quem sou eu ou quem é você. Trata-se de saber quem somos nós, os brasileiros, como sociedade. De como nos vemos e de como somos vistos. 

O morticínio do presídio foi notícia no mundo inteiro. O olhar que se pousa sobre nós fez-se mais denso. 

E aqui, o horror que sentimos diante do massacre de Manaus é o mesmo que sentimos diante dos repetidos massacres do EI? As cabeças cortadas, de um lado e do outro, têm para nós o mesmo peso? O fato de uns serem reféns inocentes e os outros serem bandidos faz diferença? 

Ou estamos mais preocupados com os 80 e tantos que fugiram pelo túnel ameaçando a tranquilidade fora do presídio, do que com os que mataram ou foram mortos? 

Na foto publicada na primeira página de "O Globo" de terça-feira, mostrando o lado de fora do Anísio Jobim há, entre os familiares, duas mulheres encapuzadas, só olhos de fora. Pode ser temor de um eventual gás lacrimogêneo, ou medo de ser reconhecida por elementos da facção rival à do seu parente. O enfrentamento não se limita ao recinto do presídio. Nem se limita à luta entre uma facção de traficantes e outra. O enfrentamento mais amplo e mais fundo se situa, já faz tempo, entre a sociedade que somos e a que queremos ser. 

(Marina Colasanti)

01) Qual a temática do texto? Justifique sua resposta: 

02) Que fatos citados no texto propiciam o aparecimento dos bárbaros? Qual deles você acha o mais frequente em nossa sociedade? 

03) O que o texto mais denuncia? Explique seu raciocínio: 

04) Você acha que a indiferença ante o sofrimento alheio contribui indiretamente com o aumento da violência? Justifique sua resposta: 

05) "Pode-se enxertar barbárie numa criança, privando-a de proteção, educação e de um ambiente adequado ao seu crescimento". segundo o texto. Mas quando uma criança tem, por exemplo, tudo isso e, ainda assim, se torna um jovem capaz de atos como queimar mendigos, espancar pessoas, matar, roubar... o que falta? Justifique sua resposta: 

06) Transcreva do texto uma passagem que comprove a importância do coletivo, do NÓS: 

07) Observe com atenção o sexto parágrafo e explique por que a construção do mesmo se deu em cima de negações. Qual o objetivo disso? 

08) Responda, sinceramente, a essa pergunta feita no texto: "O fato de uns serem reféns inocentes e os outros serem bandidos faz diferença?", justificando seu ponto de vista: 

09) Comente o que você entendeu com o trecho destacado no final do texto, posicionando-se: 

10) Que sentimento o texto mais despertou em você? Explique:

11) Escreva UM pequeno parágrafo associando, de alguma forma, a tirinha abaixo ao texto lido: 


12) Como, afinal, você responderia à pergunta do título? Justifique sua resposta: 

13) Relacione o pensamento de Einstein ao texto em questão, dizendo se você considera ou não esse comportamento frequente e por quê: 


14) Segundo o crítico e historiador francês Taine, "o homem é produto do meio, da raça e do momento histórico em que vive". Que passagem do texto dialoga com esse pensamento? Transcreva-a, explicando seu raciocínio:

15) A autora faz uso de sentenças interrogativas ao longo do texto. Qual seria a função dessa estratégia discursiva?

16) Que mensagem o texto lhe transmitiu, como um todo? 

(Agradecimento especial a algumas meninas do grupo "Arte e Manhas da Língua": Adriana Lessa, Regina Maria, Aparecida Ferreira, Luciana Chaves, Maria Ruth, Sandra Curvelo, Maria Regina)

sábado, 22 de abril de 2017

Análise da música "Até quando?"


Até quando? 

Não adianta olhar pro céu, com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer e muita greve,
Você pode, você deve, pode crer. 
Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver
Se liga aí, que te botaram numa cruz e só porque Jesus
sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer.

Até quando você vai ficar usando rédea?
Rindo da própria tragédia?
Até quando você vai ficar usando rédea?
(Pobre, rico ou classe média)
Até quando você vai levar cascudo, mudo?
Muda, muda essa postura.
Até quando você vai ficar mudo?
Muda, que o medo é um modo de fazer censura.

Até quando você vai levando?
(Porrada! Porrada!)
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando?
(Porrada! Porrada!)
Até quando vai ser saco de pancada?

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente
seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Cê tenta ser contente e não vê que é revoltante
Você tá sem emprego e a sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo
Você que é inocente foi preso em flagrante!
É tudo flagrante! É tudo flagrante!

A polícia matou o estudante, falou que era bandido, 
chamou de traficante.
A Justiça prendeu o pé-rapado, soltou o deputado
e absolveu os PMs de Vigário.

A polícia só existe para manter você na lei,
lei do silêncio, lei do mais fraco:
ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco.
A programação existe pra manter voce na frente,
na frente da TV, que é pra te entreter, 
que é pra você não ver que o programado é você.

Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar.
O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar.
Aquilo que o mundo me pede não é o que mundo me dá. 
Consigo um emprego, começa o emprego, me mato de tanto ralar.
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar.
Não peço arrego, mas onde que eu chego se eu fico no mesmo lugar?
Brinquedo que o filho me pede, não tenho dinheiro pra dar. 

Escola, esmola!
Favela, cadeia!
Sem terra, enterra!
Sem renda, se renda!
Não! Não! 

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente. 
A gente muda o mundo na mudança da mente. 
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente. 
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura.
Na mudança de postura a gente fica mais seguro, 
na mudança do presente a gente molda o futuro!

Até quando você vai levando porrada, até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai ficar de saco de pancada?
Até quando você vai levando?

(Gabriel O Pensador) 


01) Copie do texto palavras que remetem à fala coloquial, explicando a importância disso para o contexto: 

02) Transcreva do texto uma passagem de que tenha atraído mais a sua atenção, dizendo o porquê:

03) A que classe gramatical pertencem as palavras "mudo" e "muda"? Por que essa escolha?

04) Que efeito se sentido têm as palavras que se encontram entre parênteses, no texto?

05) De que par de rima você mais gostou? Explique sua escolha:

06) Posicione- se sobre o primeiro verso da música, explicando seu ponto de vista:

07) Podemos afirmar que a letra de música em questão possui características do gênero "manifesto"? Justifique sua resposta:

08) Relacione a imagem abaixo ao texto lido:

Nenhum texto alternativo automático disponível.

09) Com base nos argumentos do texto, responda: Até quando?

10) O verso "Muda, que quando a gente muda, o mundo muda com a gente" faz um forte apelo ao interlocutor, incitando-o à mudança. Que tipo de mudança seria essa? Comente:

11) Explique o duplo sentido presente na expressão destacada no terceiro verso do poema:

12) Posicione-se com relação ao verso em destaque na segunda estrofe, explicando bem:

13) Copie do texto uma passagem em que o autor expressa a sua visão com relação à Justiça, concordando ou discordando dele: 

14) Podemos afirmar que no trecho destacado na sexta estrofe há uma ironia? Explique seu raciocínio: 

15) O que significa a expressão "vai pro saco", presente na sexta estrofe? Você costuma usá-la?

16) O autor afirma na música que "você é dominado". Você concorda ou não com isso? Justifique sua resposta: 

17) Dê a sua opinião sobre o trecho grifado na sexta estrofe, explicando seu raciocínio:

18) Que mensagem a música lhe transmitiu? Comente:


(Participação especial das amigas artemanhosas Aparecida Ferreira e Maria Ruth)

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Atividades com a música "Manifesto"


Manifesto

A gente acorda pra vida e não quer sair da cama
A gente abre a ferida na pele de quem nos ama
A gente vive na guerra, a gente luta por paz
A gente pensa que sabe, mas nunca sabe o que faz
A gente nega o que nunca teve forças pra dizer
A gente mostra pro mundo o que se quer esconder
A gente finge que vive até o dia de morrer
E espera a hora da morte pra se arrepender de tudo. 

E todas essas pessoas que passaram por mim
Alguns querendo dinheiro, outros querendo o meu fim
Os meus amores de infância e os inimigos mortais
Todas as micaretas, todos os funerais
Todos os ditadores e subcelebridades
Farsantes reais encobertando verdades
Pra proteger um vazio, um castelo de papel
Sempre esquecendo que o mundo é só um ponto azul no céu.

Quem é que vai ouvir a minha oração?
E quantos vão morrer até o final dessa canção?
E quem vai prosseguir com a minha procissão
Sem nunca desistir nem sucumbir a toda essa pressão?

No escuro, a sós com a  minha voz
Por nós, quem? Quem? Quem? 
Antes, durante e após, desatando os nós, hein? Hein? Hein?

Sente no corpo uma prisão, correntes, vendas na visão
Os caras não avisam, balas não alisam, minas e manos brisam
E precisam de mais, mais visão, ter paz
Note que o holofote e o vício nele em si te desfaz
Menos é mais, e o que segue é a lombra
Onde se vacilar os verme leva até sua sombra
Cada qual com seu caos
O inferno particular
Tempo, individual
E o amor, impopular. 

Só existe uma maneira de se viver para sempre irmão
Que é compartilhando a sabedoria adquirida
E exercitando a gratidão, sempre
É o homem entender que ele é parte do todo
É sobre isso que o manifesto fala
Nem ser menos e nem ser mais, ser parte da natureza, certo
Ao caminhar na contramão disso, a gente caminha
Pra nossa própria destruição.

(Emicida e Lenine)


01) Há alguma incoerência no primeiro verso da música? Justifique sua resposta:

02) Existe alguma antítese na letra de música? Comente bem: 

03) Posicione-se sobre a passagem destacada no texto, explicando seu ponto de vista: 

04) Qual a importância das indagações da terceira estrofe para o texto? Trata-se ou não de perguntas-retóricas? Explique: 

05) Qual o objetivo da repetição do pronome "quem", no verso "Por nós, quem? Quem? Quem?"? 

06) Justifique o título da música, relacionando-o ao seu conteúdo: 

07) Qual o objetivo desse "manifesto"? Ele cumpre com tal objetivo? Justifique sua resposta: 

08) Transcreva do texto um desvio gramatical, explicando o porquê de ele provavelmente estar ali: 

09) Que mensagem a música lhe transmitiu? Comente:

10) Qual seria o SEU manifesto? Elabore um! Mãos à obra!

(Agradecimento à amiga artemanhosa Aparecida Ferreira por me apresentar esta música!)

quarta-feira, 29 de março de 2017

Atividade de arte e criatividade: "O Monstrinho"

Minha amiga Flávia Damas, ex-ce-len-te professora de Artes, que vive inventando moda, me passou uma atividade que eu adorei, por isso aqui compartilho, e ainda, de quebra, fiz com o meu filhote Miguel, de 7 anos e com a amiguinha dele, a Laura, de 9 anos (e também criei o meu monstrinho, claro!). 

Prepare-se para só escutar e desenhar o que vai pedindo! Cada um desenha o seu! 

01) Tem uma cabeça em forma de círculo bem grande;
02) Tem três olhos;
03) Usa óculos;
04) Seu nariz é uma vassoura;
05) Sua boca é um barco;
06) Seu cabelo é um cacho de banana;
07) Seu chapéu é um avião;
08) Uma de suas orelhas é um sol;
09) A outra orelha é sua fruta predileta;
10) Seu pescoço é uma escada;
11) Sua barriga é uma forma geométrica qualquer;
12) Um de seus braços é um utensílio utilizado na cozinha;
13) O outro braço é um objeto que há em seu quarto;
14) Uma das suas pernas é um objeto utilizado no banheiro;
15) A outra perna é um objeto que há na sala de aula;
16) O monstro adora comer, e sua barriga é transparente. Ele comeu um prédio e um bichinho de estimação. 

Desenhado o bichinho, o professor pode sugerir que as crianças escrevam sobre o seu monstrinho. 
Sugestões de perguntas:

01) Qual o nome de seu monstrinho?
02) De onde ele veio?
03) O que veio fazer aqui?
04) Ele vai ficar aqui por quanto tempo?
05) Onde ele está morando?
06) O que ele mais gosta de fazer?
07) Ele encontrou amigos?
08) As pessoas gostam dele?
09) Ele é um monstrinho bom ou mau?
10) O que ele gosta de comer? 
11) Quando ele vai retornar para o lugar de onde veio?

O meu monstrinho: 



Minha história sobre ele: 

O meu monstrinho se chama Sebastião, vulgo Tião ou Titi. Ele veio de Plutão e veio atrás de uma namorada bem bonita. Para isso, pretende ficar uns mil anos por aqui, e ficará debaixo da cama do menino mais bonito do Planeta Terra. 

Ele gosta de dançar "Deu onda" e de sambar e encontrou alguns amigos. As pessoas gostam dele, porque é um monstrinnho bom, só que gosta de comer tudo o que vê pela frente: prédios, flores, animais, objetos...

E só vai retornar quando sua namorada finalmente aparecer! 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Cartaz sobre Voluntariado!



01) A que gênero textual pertence o texto acima? Qual a principal finalidade do gênero, de um modo geral?  

02) Qual a finalidade específica deste texto em questão?

03) Qua a função de linguagem presente na passagem "Faça a diferença! Seja um voluntário!"? O que lhe serviu de "pista textual" para chegar a essa conclusão? 

04) Qual o objetivo da suposta correção feita na frase central do texto? Ela surtiu efeito, na sua opinião? 

05) Qual era a frase antes da correção? Dá para ler? 

06) Qual o intuito da nova frase? Ele foi alcançado? Justifique sua resposta:

07) O que você pensa a respeito do trabalho voluntário? Já prestou algum? Comente:

08) Por que ainda são tão poucas pessoas que se dedicam a esse tipo de trabalho? O que fazer para mudar esse quadro?  

Vamos discutir mais um pouquinho?!?

Não se pode banalizar a maldade.
Lugar de bandido rico não pode ser em casa. É na cadeia.



       Adriana Ancelmo é liberada para cuidar dos filhos em casa. Os filhos precisam muito dela, coitada. Quando ela participou de falcatruas, sabia exatamente o que estava fazendo... pensou nos filhos? Não. Nem nos dela, nem nos nossos.

As presas pobres, solteiras, viúvas, abandonadas, com filhos pequenos, vão ser liberadas? Com a mesma eficiência e rapidez da senhora Justiça? Mãe é importante, não é? E as que morreram sem direito à saúde? As crianças que, pelo dinheiro desviado, ficaram órfãs? Os pequenos que morreram por falta de condições de tratamentos adequados e dignos? Isso é assassinato. Não tem outro nome. Adriana Ancelmo é homicida. Ela e seus amigos roubaram saúde, esperanças de cura. Roubaram vidas e tempo de vida. Esbanjaram, tripudiaram. Agora ela vai para casa? Tomar champanhe? Comer do bom e do melhor? Isso não é prisão domiciliar. Isso são férias. Isso é prêmio.

Vivemos num país em que lugar de bandido pobre é na cadeia. Lugar de bandido rico é onde ele quiser. Isso é deboche com quem é honesto. Bruno solto. Adriana em férias na sua prisão domiciliar. Tudo dentro da legalidade. Uma legalidade torta, míope e tendenciosa. Que só aparece quando o réu é rico. Enquanto Bruno é liberado com eficiência, quantos presos pobres, muitos inclusive inocentes, estão ainda vendo o sol nascer quadrado sem que a Justiça sequer se coce? Um criminoso tão cruel que nunca devolveu o corpo da vítima. Imagina o que é não saber onde está o corpo da sua filha? Imagina uma pessoa não ter o direito de ser enterrada em paz? É de uma maldade infinita. Ter Bruno como ídolo é mostrar que tudo pode e a vida não vale nada. Ser bom goleiro basta para ser admirado.

Você levaria seu filho para tirar foto com uma pessoa assim? Se fosse um zoológico, até entenderia. -- Olha ali a cobra! -- Tira foto. Se fosse para mostrar Bruno preso e dizer: -- Viu? Aprenda! Isso não se faz. Ok. Mas livre, feliz e contratado e dizendo que não é bandido? Não me parece bom exemplo para criancinhas. Inocente? Bruno, vamos brincar de bingo. Pega uns feijões aí. Cada palavra que servir você vai marcando. Está nos dicionários. Bandido - nome masculino. Pessoa que pratica atividades ilegais e criminosas; malfeitor; criminoso. Pessoa sem caráter. Quadrilheiro, desalmado, homicida. Bingou? Bingou! E de cartela cheia! Bruno, não vou te enganar. Você é bandido, sim. Não fui eu que disse. Foi o dicionário. E a Justiça que te condenou a vinte e dois anos e três meses de prisão. Condenação que, pelo jeito, não vai ser cumprida, né? Imagine seu filho animado dizendo: -- Quando crescer, quero ser igual ao Bruno! Você não se preocuparia? É isso. Essa pessoa não pode ser modelo para nossas crianças.


Tirar selfie com Bruno é um sintoma. A ponta do iceberg. O estrago é muito maior. Estamos no meio de uma crise de valores. De quem é valorizado. Do que presta ou não. Nossos ídolos são criaturas muito esquisitas. De gente com comportamento duvidoso, de moral torta. E a gente bate palma.

Os pais que levam a criança para tirar retrato com Bruno não são diferentes dos que chegam na escola botando banca e desrespeitando professor. Dos que acham que os filhos estão sempre certos. E fazem curvas nas regras para que elas só valham sempre a seu favor. E dos seus filhos, claro. São seres do tipo: - O que que tem? A defesa perfeita. Além das desculpas que fazem o pior réu parecer um coitadinho inocente. Estamos criando monstros. Crianças sem valores. Sem ética. Sem empatia. Sem um pingo de senso moral. Expõem e se expõem sem pudores. Sem reservas. Sem pensar em consequências. Elas aprendem que mentir dá bom retorno. Que roubar não tem problema. Que adultos e colegas não precisam ser respeitados. Que o umbigo delas é o centro do universo. Tudo pode. Tudo é permitido. Pior. Com a falta de regras, na verdade, é recompensado. Batem, humilham, tripudiam de colegas, funcionários, professores. Sabe o que acontece? Nada. Não há respeito pelo outro. Só pelos próprios desejos. Crianças sem limites. Más. Insuportáveis. Pequenos Brunos. Está certo tirar foto junto. Agora até entendo.

Alunos trabalham no ponto morto. Copiam deveres dos outros. Não participam, só colocam nomes nos trabalhos alheios. Colam a prova toda. A resposta, já combinada, deixada no banheiro. Ou passada pelo celular no estojo. Vigora a lei do menor esforço. Escolas esvaziadas com a crise, no medo de perder alunos, se tornam permissivas. Aprovam sem nota, nem mérito. Curvam-se a qualquer ordem dos pais. Que, cientes disso, se organizam para o ataque em bandos irracionais de WhatsApp. Quem não educa, deseduca. Cria pequenos ditadores. Crianças com egos inflados que mentem sem pestanejar. Torcem verdades. Riem na nossa cara.

Reparem. A carne é de papelão. O leite vem contaminado. Os legumes cheios de agrotóxico. Os governadores desgovernam. As pessoas não sentem culpa, remorsos. Envenenam. Enganam. Sem dó. Não há mais limites para a maldade humana. Para o desrespeito ao outro. Enganar e tirar vantagem. Lucrar. Esses são os verbos do momento. É a banalização do mal. Matar, sequestrar, torturar, desviar verbas, corromper é normal. A gente deu defeito. Alguma coisa deu muito errado na raça humana. A vontade é de dar o sinal e saltar. Nessa impossibilidade, é preciso lutar. Mostrar para nossos meninos que não pode ser assim.

É preciso lutar hoje, para que nossos filhos tenham direito a um mundo melhor. Onde Brunos não ousem matar. Mesmo sendo ótimos goleiros. Onde corruptos confraternizem, sim. Com as quentinhas da cadeia. Onde cadeias sejam um lugar não só de bandido pobre. Mas, principalmente de bandido rico também. Porque esses fazem um estrago muito maior.

Ser pai, mãe, exige gastar menos tempo nas telas de celulares e laptops. Olhar nos olhos dos filhos. Sentar do lado. Estar junto. Agarrar, abraçar, fazer cosquinha. Eles reclamam, mas gostam. Estar presente. Dizer NÃO. Botar limite. Dar castigo, se for o caso. Fazer filho é uma delícia. Ter filho é razoavelmente fácil. Criar um ser decente, esse é o maior desafio. Dá trabalho. Cansa. Tem horas que é chato. Que irrita. Que a vontade é dizer SIM e se livrar logo da criatura. Mas eles dependem de nós. Eles testam, para ver até onde podem ir. Até onde nosso discurso é coeso. Até onde a gente acredita no que fala. Eles testam porque querem limites. Precisam disso.

Filho é como água. Sem os limites para servir de continente, se espalham e se perdem. Por isso é preciso estar do lado. Perto. Acompanhar. Puxar assunto. Dizer que ama. É preciso. Para ontem. Filho melhora a gente. E a gente melhora com o filho. Filho é crescimento. É embate. É amor. É por eles que a gente acorda a cada dia. E se supera mesmo quando tudo é espinho. E a gente anda descalço. Mas leva eles no colo. Eles serão nossos. Amados. E para sempre. Então é melhor caprichar agora.
(Mônica Raouf El Bayeh – Jornal “Extra” – 19/03/17)

01) Transcreva do texto três passagens carregadas de ironia:

02) Copie uma pergunta retórica do texto, explicando seu raciocínio:

03) Posicione-se sobre a passagem destacada no segundo parágrafo do texto, explicando bem:

04) Dê a sua sincera opinião sobre o trecho em destaque no terceiro parágrafo, comentando:

05) Qual a sua opinião sobre as outras duas passagens situadas ainda no terceiro parágrafo?

06) O que significa a expressão “vendo o sol nascer quadrado”, empregada no texto?

07) Responda à pergunta que inicia o quarto parágrafo do texto:

08) Posicione-se acerca da passagem  destacada no quarto parágrafo, justificando seu ponto de vista:

09) O que você tem a comentar sobre o sexto parágrafo? O que gostaria de complementar ou discordar, contrapor?

10) Podemos afirmar que a passagem em destaque no sétimo parágrafo traz uma antítese? Explique:

11) Você concorda ou não com a parte em negrito presente no oitavo parágrafo? Por quê?

12) Copie do texto um par de antítese:

13) Há algum desvio gramatical presente no último trecho destacado no texto? Explique:

14) Que mensagem o texto lhe transmitiu? Comente: 

segunda-feira, 6 de março de 2017

Falando, ainda, sobre o goleiro Bruno...

TEXTO 02: 

Bruno está feliz. Leve. Solto, em todos os sentidos. 
Este fato despertou horror em uns e euforia em outros. 

1 - O olhar de Bruno. Já repararam? É um olhar frio. Calculado. De quem não se arrepende do que fez. Olhar de quem crê na impunidade safada que cobre esse país. Na certeza absoluta de quem não voltará para a cadeia. Tranquilo, ele começa a refazer a vida. Coisa que só quem está vivo pode fazer. Só quem está vivo. Entendeu, ou quer que eu desenhe? 

2 - Você também quer uma selfie com Bruno? Bruno ainda tem fãs! A euforia com que Bruno é defendido por fãs me embrulhou o estômago. Bruno era bom goleiro. Ok. Eu me lembro disso. O Flamengo brilhava. O que as pessoas esquecem é que na vida a gente escolhe. Escolhe ações, paga as reações. Bruno estava rico. A pensão para o filho Bruninho ia sair no xixi. Ele podia pagar sem sentir. Não ia lhe empobrecer em nada. 

Ele escolheu mandar matar Elisa. Houve depoimento de que talvez tivesse mandado matar o menino também. Ele escolheu o crime. Como se não houvesse justiça para se discutir, se chegar a acordos. Ele escolheu o risco. De ser pego. De ser descoberto. De acabar na prisão. Foi escolha dele. Ele mandou sequestrar. Maltratar. Torturar. Matar. A mulher que era a mãe de seu filho. E ainda tem fãs? Tem. Acredite, tem. Vi pessoas defendendo esse homem com unhas e dentes: 

-- Antes de mais nada, a gente tem que agradecer ao Bruno por tudo o que ele fez pelo Flamengo. 

Engraçado. Por quê? Quando ele escolheu tirar a vida de outra pessoa, ele não pensou no Flamengo. Não se preocupou com a falta que faria. E fez. Ele se lixou para o time. Para os fãs. Ou será que ele fez o que fez na certeza de ser protegido? Na confiança de que um goleiro tão bom não ficaria preso porque faria falta? 

Ouvi na época da Copa pessoas lamentando o fato de ele estar preso. Ouvi pessoas sugerindo que ele fosse solto para jogar na seleção. Ele, com certeza, estaria convocado. Foi dele a escolha pelo crime. Foi ele que preferiu não ficar com o time e com os torcedores. 

-- Não há provas contra Bruno. 

Oi? Não há provas? E o sangue no carro? As confissões dos criminosos amigos dele? As peças de roupa da Elisa com ele? A namorada da época que ficou com o bebê? Há provas. Não há cadáver. Porque a moça virou ração para cachorro. Com requintes de crueldade. Imagina a dor de uma família não poder enterrar uma filha com um mínimo de dignidade? Imagina o vácuo? A angústia de passar por isso? Pois é. 

Quem fala uma coisa dessas deve ser fã mesmo. É bem igual a ele. A mesma falra de dó. De empatia. A mesma alma gelada de quem não sabe o que é sentir junto. Sofrer junto. 

-- Ele já cumpriu o que devia. 

Quem tira uma vida, tira tudo. Ele deixou um filho sem mãe. Uma mãe sem filha. Essa é uma dívida eterna. De dor. De estrago. De desrespeito. O rombo que ele causou na vida dessas pessoas é uma dívida que não tem preço. No Brasil, ela tem tempo. E esse tempo não foi cumprido não. Então ele não cumpriu o que devia. 

3 - Ela era puta! Eu li isso. Não acreditei. Li de novo. Assim a pessoa defendia Bruno. E eu pergunto: e daí? Elisa era garota de programa. Fez filmes pornôs. Elisa não era santa. E Bruno sabia. Conhecia bem. Se há uma coisa que Bruno não é é santo também. Bruno sabia exatamente com quem estava. Sexo é coisa feita a dois. Se não tem outro nome. Ele era Maria Chuteira? Então cabia a ele o cuidado para não ser pego no golpe da barriga. Para toda barriga que cresce com um filho dentro, houve um pinto que não fez questão de se proteger. Não é mesmo? Elisa podia ser o que fosse. Não importa. Não justifica. A vida era dela. De mais ninguém. A ninguém cabe julgar. Nem condenar. Nada justifica a morte de uma pessoa. Nada. Nunca. 

Sabe o que é mais triste? Todas essas frases foram de mulheres. As mulheres são as que mais atacam as próprias mulheres. As que mais crucificam. As que apontam dedo acusando. Já não basta a sociedade machista? A gente também vai se esculachar? Quem será por nós, mulheres, então? Com quem poderemos contar? 

4 - O advogado pediu um exame de DNA para confirmar paternidade. Mas, vem cá, se era para pedir exame de DNA por que não pediram logo, antes de matar a moça? Já imaginou se o filho não for dele? O estrago que ele fez à toa? 

5 - Bruno se diz desejado por dez clubes de futebol de Minas, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Entre eles, Bangu. Eu acho que Bangu é bom. Com sorte, já joga em casa. Não tem deslocamento. Gasto com transporte. O que eu não vi é se é o 1 ou o 2. 

6 - Agora é a hora de ele viver a vida dele, em liberdade -- afirmou o advogado ao EXTRA. O que você sente lendo isso? O que essa frase desperta em você? Em mim, sobe revolta. Uma tristeza. Uma sensação de que está tudo largado mesmo. Estamos à deriva. Num país sem lei. Sem ordem. Sem justiça. 

Bruno  tem direito à lierdade porque não foi julgado? Se Bruno, famoso, do Flamengo, não foi julgado, imagine os pobres, os desconhecidos. Quantos injustiçados e com casos bem menos graves ainda estão encarcerados? Os que não têm como pagar advogados caros? Até quando viverão sem vida e sem liberdade? 

Escrevam aí. Não preciso nem usar minha bola de cristal. Madame Mônica prevê. Bruno vai ficar solto. Não volta mais para a cadeia. Mais um homem protegido pela justiça injusta. Nossa Justiça de olhos vendados. MachistaEle vai arrumar time para jogar. Um time que não ligue para ética, moral, justiça. Só para gols, bola na rede, vitórias certas. Um time que se preze não contrata pessoas assim. Ele vai entrar em campo e vai ter gente sem noção gritando: -- Ah, o campeão voltou! Aplaudindo, gritando, torcendo, sem ligar para o que passou, Dizendo coisas como: -- Já são águas passadas. -- Ele já pagou o que deve. -- Não houve provas. 

O certo seria ninguém ir ao estádio. Boicotar o time. O patrocinador do time. Fazer um auê. Mas estamos num país em que se vota nos mesmos. Em políticos que aprontam tanto que conseguiram falir estados inteiros. E que daqui a pouco estarão livres de novo. Eles sabem disso. Prontos a desfrutar de rica liberdade. 

Estamos num país em que milhares de pessoas vão às ruas atrás dos blocos da Anitta e da Preta Gil. E não vão protestar pela falta dos seus salários, da saúde, da educação. Antigamente davam "pão e circo"; hoje nem pão dão mais. Mas o povo se ilude com o circo. E está tudo bem. Não é à toa que Bruno foi solto no Carnaval. Povo feliz, nas ruas. Tudo certo. Só mais um sem pagar pelo que fez. 

Sou a favor do Carnaval. Sempre. E da luta. E da vida. De todos! É preciso lutar por uma justiça justa. Enquanto as pessoas que matam e que agridem não tiverem justiça, a vida de todos nós está em risco. Não se iluda. Nada é longe da gente. Homens que se protegem, esquecem que têm filhas, irmãs, mães. Qualquer um pode virar ração de cachorro, sabia? O que isso provoca em você? 


01) O que seria, já no texto, o duplo sentido para a passagem "solto, em todos os sentidos", empregado pela autora? Você concorda com isso? 

02) Copie uma passagem já no título que comprove que o assunto em questão é polêmico e que divide bem as opiniões das pessoas, aproveitando para dizer qual é a sua: 

03) Quando a expressão destacada no primeiro parágrafo costuma ser usada? Qual a função dela no texto? 

04) Por que a palavra "selfie" apareceu em itálico no texto? Você tiraria uma com o ex-goleiro? Por quê? 

05) Por que a passagem destacada no segundo parágrafo trouxe o verbo no passado? 

06) Explique, posicionando-se, a passagem destacada no terceiro parágrafo: 

07) Transcreva do texto duas passagens carregadas de ironia, explicando seu raciocínio: 

08) Copie do texto passagens que indicam a presença da linguagem coloquial: 

09) Posicione-se com relação às passagens destacadas no nono e no décimo parágrafos, explicando bem: 

10) Observe a passagem destacada no item 03 e responda: você acha que é motivo para alguém ser assassinada? Justifique sua resposta: 

11) Ainda no item 03, observe a palavra em destaque e repetida. Por que outra palavra ela poderia ser substituída sem causar prejuízo à frase? 

12) Na expressão "Se não tem outro nome", destacada no texto, que nome teria? Justifique sua resposta:

13) No décimo segundo parágrafo, o que a opinião em destaque demonstra? Você concorda ou discorda? Por quê? 

14) Concorde ou não com a passagem destacada no décimo terceiro parágrafo, explicando seu ponto de vista: 

15) No parágrafo 18, posicione-se sobre a passagem nele destacada, comentando sua opinião: 

16) Retire do texto um exemplo de antítese, explicando: 

17) Na última passagem destacada do texto podemos afirmar que há nela uma redundância? Por quê? 

18) Observe a última palavra destacada no texto (justiça) e substitua por outra que caberia ainda mais no contexto, explicando o porquê: 

19) O texto 01 ou o texto 02 foi mais agressivo, mais forte? De que texto você gostou mais? Por quê? 

20) Que mensagem o texto lhe transmitiu?

21) Explique o que a charge abaixo tem em comum com o texto lido:



22) Relacione, de alguma forma, a charge abaixo ao texto lido, explicando seu raciocínio: